quarta-feira, 8 de julho de 2009

Dormir é Inevitável


Dona Rosa estava internada há 3 meses na ala semi-intensiva do Hospital Vita. Desde que diagnosticaram seu tumor maligno, sua vida se passava em um quarto de 3 m ². Acordava às 7, com uma bandeja de café da manhã no colo e duas enfermeiras conferindo os equipamentos e anotando coisas em uma prancheta.
Comer assim na cama até que não era tão ruim, apesar da comida sem sal que exigia sua dieta. O pior era quando tinha vontade de fazer xixi. Apertava um botão e em alguns minutos alguém lhe trazia a comadre. Como ela odiava fazer suas necessidades deitada, sempre falava que o que queria era fazer o número 2. Passava pelo ritual da retirada dos tubos e entrava sozinha no banheiro com uma sensação de liberdade. Ficava lá por 5, 10 minutos, até que ouvisse uma voz de fora lhe perguntando se estava tudo bem.
De volta à cama, esperava o tempo passar. Lia alguma revista, chegava o almoço. Comia, ligava a TV. Recebia a visita do médico, respondia-lhe às perguntas de praxe, dando sempre as mesmas respostas:
- Como vai, Dona Rosa?
- Bem, indo.
- E a comida? Estava boa? Como anda seu apetite?
- Boa a comida, doutor. Ando com fome.
- Isso é bom. E como passou a noite?
Dona Rosa sempre hesitava nessa pergunta. Achava que o médico a testava. Como ainda ninguém percebera que não engolia os remédios?
- Passei bem.
O médico a elogiava, mas ela sabia que estava com os dias contados. Não aceitava o fato de estar morrendo e, como não queria ser pega de surpresa, evitava dormir.
Quando chegava o seu coquetel noturno, selecionava os remédios, deixando o sonífero por último. Tomava um por um, em grandes goles, sob o olhar atento do enfermeiro, e na hora de tomar o sonífero, com o comprimido escondido no canto da boca, simulava uma talagada.
O enfermeiro fazia suas anotações, perguntava-lhe se queria alguma coisa e ia embora. Começava a rotina noturna de Dona Rosa, que só se diferia da diurna por ser menos perturbada pelos médicos e atendentes. Todos pensavam que ela dormia.
Mas não. Com medo do sono eterno, ela evitava o sono reparador usando de mil e uma artimanhas para atrair e manter a insônia. Chegava a ler por 3 horas seguidas, pois não tinha paciência de ver TV por mais que meia hora. Se por acaso, algum médico entrava no quarto, ela dizia que tinha acordado com vontade de ir ao banheiro. Depois disso, o jeito era, discretamente, manter a mente ocupada para que o sono não viesse. Ficava deitada, de olhos abertos, relembrando sua infância e adolescência. Lembrava do marido, de como se conheceram, do casamento... Do dia em que ele morreu. Batia uma saudade, uma vontade imensa de revê-lo, mas logo pensava na morte e o desejo passava.
A noite seguia assim, e quando menos esperava, mais um dia havia se passado, e lá estava seu café da manhã. Às vezes sentia um certo cansaço, mas Dona Rosa, conhecendo o poder da mente, logo espantava o sono imaginando-se morrendo.
Assim seguiam seus dias. Quanto mais Dona Rosa evitava o sono, temendo a morte, mais a atraía. Ela definhava, enfraquecia, e nada de dormir.
Até que um dia, sem saber ao certo se acordada sonhava ou se sonhava acordada, Dona Rosa recebeu uma repentina visita. A Sra. Morte, aproximando-se da cama, inclinou-se para perto dela, exalando um cheiro de séculos, e toda dengosa, perguntou:
- E aí, bobinha... Achou que estava me enganando?
Dona Rosa, pela primeira vez desde que se mudara pra aquele quarto, fechou os olhos e implorou o sono.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Natal Vermelho


Eu não imaginava até onde poderia chegar à oposição entre o corpo e a mente. Não com 11 anos.
Era dia 19 de dezembro e eu estava, com meus pais, na casa de minha avó, antecipando o Natal, pois viajaríamos no outro dia de manhã e só voltaríamos no início do ano seguinte. Já havíamos passado por quase todas as etapas do ritual natalino: rezamos, cantamos e nos cumprimentamos em frente ao enorme pinheiro de Natal, quase centenário, do qual minha avó cuidava com esmero há tantos anos que nem meu pai saberia contar.
Ao pé da árvore, pacotes coloridos incrementavam a decoração e aumentavam a curiosidade de desvendar o conteúdo de cada um deles. Segui meus instintos infantis e abri primeiro os presentes maiores. Ganhei novos exemplares pra minha coleção de Pollys e ansiava acabar de abrir os outros presentes para ir logo brincar com minhas novas bonecas. Não estava errada. Os pequenos pacotes eram roupas de todos os tipos: vestidos pra reveillon, conjuntos leves para o verão e bikinis. Como toda mãe que se preze, a minha quis logo me levar ao lavabo para que provasse aquele amontoado de chatice.
Quis acabar logo com aquilo, e fui correndo experimentar as roupas. Todas serviram, mas ainda faltavam os bikinis. Tentei convencer minha mãe de que eles serviriam perfeitamente, que eram lindos, parecidos com os outros que eu tinha, etc... Mas não teve jeito. Tirei a blusa e provei a parte de cima da roupa de banho. Eu mal usava sutiã. Olhei pra minha mãe, e falei:
- Pronto, perfeito.
Quis me vestir rapidamente, colocar a blusa por cima do bikini, e ir de encontro com minhas bonecas, mas minha mãe, ainda mais ágil, me estendeu a parte de baixo, prolongando a minha angústia:
- Toma filha, veste isso e você está livre.
Amuada, obedeci. Despi-me e lá estava algo que, primeiramente, me fez gargalhar. Uma mancha avermelhada contrastava com os ursinhos azuis da minha calcinha. Olhava para aquilo meio hipnotizada pela dúvida, quando ergui o pescoço até alcançar o rosto de minha mãe, e vi seus olhos marejados em lágrimas. Olhei de novo para mancha, e minha reação foi, de pronto, pedir desculpas. Até hoje não sei se ela me ouviu. Seu olhar perdia-se num vazio que nunca compreendi e me envolveu a tal ponto que lacrimejei por achar que havia algo de errado comigo. Sentei no mármore gelado, sem nem mais pensar em Pollys, bikinis, ou qualquer outra coisa que o valha. Foi nesse instante, em que ela sentou ao meu lado e me envolveu em seus braços, que ouvi a verdade sobre o que estava ocorrendo.
Apesar de já ter estudado aquele assunto nas aulas de ciência, não imaginava que aconteceria comigo, ainda mais tão cedo. Vivia meu primeiro conflito interno de menina mulher. A natureza havia me pregado uma peça, ou cometido um terrível engano. Uma menina, de 11 anos, que acabara de ganhar bonecas e estava louca pra ir brincar, não estava apta para entender que poderia gerar outra criança. A tristeza era tanta que me sentia culpada, e tinha medo da reação da minha família.
Dos meus avós, eu tinha medo que eles pensassem que haviam me dado os presentes errados, ou que eu não havia sido sincera ao agradecê-los. Das minhas amigas, eu tinha medo da rejeição, pois em uma fase em que ser semelhante aos outros é tudo, eu seria a única que estava passando pela tal transição. Do meu pai, vinha o maior medo: de perder o trono de menininha para mim mesma e quebrar a sua expectativa eterna de que eu fosse pra sempre a sua criança.
Meu medo? Um sentimento de culpa por achar que havia feito algo errado, de não ter dado provas suficientes a natureza de que não estava pronta para aquilo e a fatídica descoberta de que não tinha controle sobre meu corpo. Afinal, eu era uma criança, e aquilo não estava certo. Não fazia sentido. Me sentia egoísta por pensar que poderia ter filhos, enquanto haviam milhares de casais pelo mundo lutando para conseguir o que eu desprezava, a possibilidade de tê-los.
Cheguei ao ponto de querer ocultar de mim mesma a verdade. Limpava-me até não haver mais nenhum vestígio, ação que consumia meio rolo de papel higiênico. Eu gastava por dia, em “purificação”, mais de 2 rolos de papel.
Fiquei cega para meninos. Não os olhava, apenas sentia a presença, e a evitava.
Não tinha mais a liberdade de entrar na piscina na hora em que bem entendesse, e em mim, aflorou um pudor até então desconhecido. Já não me despia em frente a outras crianças no vestiário e olhava para minha calça de minuto a minuto, temendo um acidente que me levasse à humilhação já latente.
Essa foi a primeira experiência em que comprovei que a mente não tem idade, mas o corpo sim. E aí ficou a dúvida... o que eu era? Uma menina ou uma mulher?
E uma mulher já passada da menopausa? Ela pode ser mais jovial que uma moça no auge de seus 20 anos. O que elas são afinal? O que faz com que a chamem de velha ou jovem?
O que define o que somos? O que os outros vêem? Ou o que pensamos?
Platão já dizia: “O corpo é a prisão da alma”.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Quando é um homem quem estraga tudo

Amo futebol desde criança. Lembro que levava minhas chuteiras para a escola para jogar com meus amigos no intervalo. Nós jogávamos trinta minutos, sem direito à pausa ou reclamação. Minha mãe só não gostava das roupas sujas:
- Como vou limpar essas meias? Ela berrava.
Mas no fim, era sempre ela quem me dava novas chuteiras.
Com o tempo, fui crescendo e troquei a bola de futebol e as chuteiras por um uniforme oficial do meu time, pelo qual eu torcia, gritava e chorava sempre que possível. Todos os jogos eram inesquecíveis e me marcavam de alguma forma, e no último, não foi diferente.
Era um domingo. Eu havia acordado às 11:30 horas. Fui direto para o banho, vesti o uniforme do time do meu coração, almocei. O jogo era às 16:00 horas e o relógio já marcava 14:05 horas. Saí correndo com meu carro, parei no estacionamento de sempre, em frente ao estádio, e fui direto às catracas que davam acesso às cadeiras.
Subi as escadas. As arquibancadas ainda não estavam completamente lotadas. Fui até a fileira do meio, e olhando para a linha divisória do campo, sentei na posição mais central possível.
Ainda eram 14:50. O tempo estava nublado e ventava forte. O estádio já estava lotado. No lado dos adversários, já havia umas duas centenas de torcedores confiantes, afinal, o CAF vinha com retrospecto favorável no nosso campo, tendo vencido os confrontos contra nossa equipe nos últimos três anos.
Fiquei esperando o tempo passar, enquanto observava as pessoas ao meu redor. Algumas eu já conhecia de vista, outras me eram estranhas. Mas, o que importava mesmo era que todos nós estávamos lá pelo mesmo objetivo: ver nosso timão acabar com o CAF.
Faltavam cinco minutos para o início do jogo. Todos se levantaram para cantar o Hino Nacional e depois aplaudiram, gritando VAI TIME!
16:00 HORAS. O juiz apita. Miller, Nogueira e Brasil, três craques do CFC, já correm para o ataque. Souza, do outro time, rouba a bola de Macedo. A torcida CFC vaia e xinga o juiz. Souza passa a bola para Botelho, mas Vital intercepta a tempo, contra-atacando e mandando a bola bem nos pés de Miller. A torcida vibra com expectativa. Miller chuta de esquerda e POW! GOOOOL!
Eu fecho os olhos e só ouço o C-F-C! C-F-C… ecoando pelo estádio. Abraço o casal que estava ao meu lado e dou um beijo na testa de seu filho.
A bola volta a rolar. Começa a cair uma garoa fina e o pessoal se protege com capas de chuva. Enquanto espero o vendedor de capas passar, o rapaz do casal diz que está indo comprar pizza para o filho, e me pergunta se não quero aproveitar e pedir uma cerveja. Eu agradeço e digo que pago assim que comprar a capa de chuva, pois só tenho uma nota grande.
O que era uma garoa fina, tornou-se um toró. Chovia litros. Eu mal enxergava, mas continuava torcendo. Finalmente, o vendedor de capas passou. Paguei e tentava vestir a capa enquanto ele pegava o troco. Vesti-me de qualquer forma. Ele estendeu o braço, e bem na hora em que abria a mão para me passar o dinheiro, alguém, temendo um gol do CAF, empurrou-o sem querer, e meu troco espalhou-se por sabe-se lá aonde.
A torcida gritava, batia palmas. Miller estava de novo com a bola, e PA!NA TRAAVE! Todos aplaudiram.
O rapaz chegou com minha cerveja e bem na hora em que eu pedia desculpas e contava como havia perdido o dinheiro, o juiz marcava penalidade máxima a nosso favor. Macedo saiu de campo na maca. O casal, felicíssimo, insistia para que eu aceitasse a cerveja. Eu aceitei e bebia o primeiro gole quando Nogueira cobrou o pênalti e não converteu. Enquanto a torcida xingava com palavrões de todos os gêneros, eu sentia a cerveja gelada escorrer pelo meu pescoço. O torcedor ao meu lado, nem percebeu que, irado com a falha de Nogueira, gesticulou com força, acertando meu copo, e fazendo com que o líquido desviasse da capa e entrasse pela minha roupa.
A torcida se acalmou, cessaram os palavrões e reiniciaram os gritos de incentivo: VAI CFC! O juiz determina dois minutos de acréscimo e o jogo segue agitado.
Miller, de novo com a bola, segue para o ataque com Souza em seu encalço. Desvia com dois dribles sensacionais, chuta para a área e é GOOOOOL! A torcida vai à loucura. O juiz apita o fim do primeiro tempo.
A chuva ficava cada vez mais forte e alguns torcedores já iam embora, mas, apesar dos pesares, tudo ia bem. CFC ganhava de dois a zero do CAF e só isso já bastava.
Eu me preparava para ir ao banheiro, quando o juiz voltou ao gramado. O que afinal ele foi fazer se ainda faltavam dez minutos para o início do segundo tempo? O clima era tenso. De repente, as pessoas que estavam com fones no ouvido começaram a xingar e se levantaram para sair. Os torcedores estavam irados, e eu nada entendia, até que li no placar eletrônico que o jogo seria suspenso devido à chuva. Decisão do juiz Sr. Roberto Marques.
O que eu poderia fazer? Em três anos, era a primeira vez que meu time estava na frente no placar e tinha todas as chances de vencer, e um juiz @*&%$# suspendeu a partida. Jogo anulado.
Saldo final: dois gols de Juliana Miller invalidados, Paula Macedo contundida, três cartões amarelos para o CORITIBA FEMININO CLUB e três para o CLUBE ATLÉTICO FEMININO, todos anulados, cinqüenta reais perdidos, 500 ml de cerveja gelada desperdiçada, e… droga, perdi meu batom.

domingo, 21 de junho de 2009

Síndrome de Peter Pan

Toni é um homem já com seus 50 anos, charmoso, alto, de cabelos negros com mechas grisalhas e grandes olhos pretos expressivos. Quando jovem, pensava em se formar em algo sério, como Medicina ou Direito, mas por obra do acaso sua carreira decolou para uma vertente totalmente oposta.
O circo “Le Grand Cirque” havia chegado à sua cidade repleto de espetáculos extraordinários, como malabarismos, domadores de leões, contorcionistas e mágicos misteriosos. As apresentações eram semanais e os ingressos se esgotavam logo no primeiro dia. Por sorte, Toni havia chegado cedo na fila, e já estava com sua entrada garantida...
- Respeitável público! Damos início ao nosso grandioso espetáculo!. Bom divertimento!
O rapaz observava com olhar vidrado o apresentador, trajado com seu fraque impecável, sair do palco para dar lugar à primeira atração: Jean Paul e seus poodles adestrados. As atrações continuaram desfilando pelo picadeiro sob os aplausos entusiasmados do público. Vieram: “Ethienné e os malabares incríveis”, os palhaços “Claude e Claudine”, “Napoleon e suas feras” e outros números incríveis.
O apresentador volta para anunciar a última grande atração. Envolto em grande suspense, o mestre de cerimônia chama ao palco MR. H.As luzes vão se tornando mais fracas e o silêncio é quase total.
Coberto com um manto negro, sem erguer a cabeça, ele entra, arrancando suspiros temerosos da platéia. Se apresenta sob centenas de olhares atentos que mal ousam piscar. A expectativa é grande. Os truques, um mais sensacional que o outro, surpreendem cada vez mais. A apresentação chega ao fim.
Os espectadores, em pé, aplaudem com vibração a performance de MR H. As luzes se acendem totalmente, e o público, encantado, começa a se retirar. Toni é o único que permanece imóvel em seu lugar. Extasiado, ele passa e repassa em sua mente todos os truques, procurando explicações plausíveis para as mágicas. Ele vai para casa e, movido pela curiosidade, sai em busca de um curso de mágica. Toni acaba de escolher o rumo de sua vida.
Após alguns meses tendo aula de mágica, ele percebe que possui um dom natural tão inacreditável que seus professores, pasmos com sua habilidade, o dispensaram do curso.
Assim, usando coisas simples que tinha em casa, passou a fazer pequenas apresentações remuneradas em festas de crianças, que se tornaram tão bem faladas, que o levaram para eventos em sua cidade, depois pelo país, e finalmente, ao redor do mundo.
Contratado por uma grande rede de hotéis, com unidades espalhadas pelo mundo, fez apresentações nas mais diversas cidades. Todos o conheciam como “Toni, o Incrível“, o Mágico Misterioso, de talento nato que se tornou mundialmente famoso em pouquíssimo tempo. Com o sucesso alcançado com seus espetáculos, cresceu também a aura de mistério envolto em sua pessoa. Todos, principalmente os outros mágicos, queriam descobrir quais eram os segredos usados na perfeita execução de seus truques.
Em uma de suas apresentações, mais voltada para o público infantil, Toni se preparava para dar início ao show, enquanto as crianças se espalhavam pela sala e os adultos aguardavam sem expectativa.
Abriram-se as cortinas e o mágico apareceu. Entre palmas e gritos das crianças, teve início o show. O primeiro truque foi relativamente simples. Toni tirava uma série de objetos de dentro da cartola, inclusive um coelho branco de grandes orelhas. Dois homens que assistiam ao espetáculo, sussurravam entre risos:
- Você viu isso? O cara ficou famoso com esse truque furrepa?
- Pois é... ha ha. A cartola com fundo falso. Quase comprei uma dessa outro dia.
As crianças estavam encantadas. Atentas, observavam tudo aplaudindo com entusiasmo. Para os números seguintes, com cartas, cordas, lenços, flores, dinheiro, jornal, as reações não foram diferentes. Os dois adultos lá atrás, ao fim de cada truque sempre tinham algum comentário mordaz:
- Como ninguém percebeu que a corda estava dentro da manga...
- A carta tem uma marcação especial, por isso ele sabe qual é...
- Aquela flor é acionada por um botão na bengala...
Com o fim da apresentação, Toni, ovacionado pelo público, sai apressado, pois em meia hora sairia o vôo para seu próximo destino. Pega o celular para chamar um táxi e percebe que está sem bateria. Vê-se na obrigação de apelar para outros meios. Abre sua mochila de mão, tateando em busca de algo. Tira a cartola, a bengala, um vestido, uma pomba, uma cadeira, uma bola, e nada do que realmente procurava. Até que finalmente acha. No pote, escrito em grandes letras vermelhas: pó de pirlimpimpim.
Toni, sem se preocupar se havia alguém observando, pega uma porção do pó brilhante e atira para cima.
Uma das crianças que assistira ao seu show, o vê desaparecer. Chama seu pai, um dos dois incrédulos presentes, e desesperada, fala:
- Paaaai, o mágico sumiu! Eu vi pai! Lá fora, agora. Ele tava lá inteirinho, e num passe de mágica, ele sumiu...não tava mais lá! Desapareceu.
O pai, indignado, olha pra seu amigo, o outro cético, e diz:
- Esses mágicos de hoje...que vergonha. Ao invés de se aprimorarem, acabam investindo em tecnologias.
O outro, de pronto, responde:
- Holograma né cara... quase comprei um desse outro dia.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Prazer, Leticia.


Não sou do tipo que se enquadra no atual padrão, mesmo porque, saber que não sou “convencional” não me parece uma coisa ruim. Aliás, até aprendi a conviver com o espelho e sempre me enxergar nele desde a sola dos pés até o último fio de cabelo.
Pois é, meus grandes 153 centímetros já fazem parte de mim. E acredite, há quem pense nisso não como defeito, mas como uma característica leticiana, única e imutável.
De fato, sou relativamente pequena, mas incrível e metricamente proporcional. Perdoe minha altivez, mas lembro uma grande mulher, uma enorme miniatura de mulher pronta para ser empalhada e colocada em uma redoma para contemplação. Boneca de luxo.
Sorte para alguns, azar para outros tantos, é o meu axioma que não harmoniza com a primeira impressão. Quero que me admirem pela essência e não pela matéria, o que é um grande paradigma, pois acho quase impossível que algum homem esteja preparado para uma mulher que vive em uma terceira geração mental. Talvez, até prefiram minha mãe, que apesar de “cinqüentona”, vive na crise de adolescente tardia.
É por essas e outras que dou razão aos grandes psicólogos que dizem que tudo está acontecendo mais rápido, as gerações estão velozmente adiantando-se ou andando de marcha-ré. Lá em casa, já até houve um retardatário.
Isso tudo me fez lembrar da última vez em que fui a um bar. O segurança me olhou dos pés à cabeça, em uma ação que obviamente levou apenas uma fração de segundo, e não hesitou em dizer:
- “A identidade, por favor”.
Virei as costas e me lembrei que tamanho não é documento.
É... melhor não esquecer mais a carteira em casa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Frase Meramente Artística (Graças a Ele).

Viúva de um homem que ainda não nasceu.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Do Inferno

Dizem por aí que o amor é vermelho, mas é só por aí. Aqui comigo, amor é divino e não faz sentido algum usar da nuance bestial para tornar visível o que é e sempre será abstrato. Não, amar não tem cor, e se tivesse, passaria bem longe de ser vermelho.
O amor sincero é benevolente, não com quem ama, mas com quem é amado, e como nem tudo na vida são flores, existe o outro lado da moeda: o “amor fingido”. Não duvidem da sua intensidade ou inexistência, pois ele é um mero amor que perdeu sua essência condescendente. Pensando de forma pragmática e literal, é o sentimento que mata, por ciúmes ou qualquer coisa que o valha.
Mas é esse amor assassino que é escarlate, que derrama sangue escarlate, que é violentamente escarlate. Só não se esqueça que esse é o “amor fingido”. Quem sabe, não seja o amor que o diabo tanto sente e que ninguém entende. Vai ver, ele é tão viciado em amar violentamente que acabou incorporando-o...e ficou rubro!
Não bastasse isso, quis também viver em um lugar da mesma cor, e arranjou o inferno, eternamente incandescente de vermelho.
Até o caminho para se chegar lá é vermelho! Ou você nunca reparou que as setas de elevador que apontam para baixo são dessa cor?
E tudo, como diria Vinicius, por causa do amor.